domingo, 28 de outubro de 2007

Desenhos que falam

Há alguns dias, a Amnistia Internacional pediu que nos juntássemos à sua campanha por Darfur. Tudo aconteceu no Largo de Camões, em Lisboa. Fui até lá e assinei uma petição que tem por objectivo a inclusão do tema Darfur na cimeira a realizar entre a UE e África. O laço preto que distribuíram representa bem o luto que podemos sentir todos os dias, por termos diante dos nossos olhos uma desgraça contra a qual nos convencemos de que pouco podemos fazer e que, quem pode, opta por ignorar. Em nome de outros valores ou critérios, Darfur afunda-se, a cada dia, num genocídio que não é a História que repete... Somos nós. Somos nós, os cegos e surdos que nada aprenderam com a História e que apregoam pelo mundo teorias e palavras de arrependimento pelo passado, enquanto o presente ecoa que nada ou pouco mudou. No Largo de Camões, a AI expos dois desenhos de crianças do Darfur. Num, podíamos ver um grupo de homens que apontavam as suas armas para uma casa que, suponho, seria a da própria criança que os desenhou. No outro, a violação de mulheres. Mais que qualquer fotografia que tenha visto até hoje, estes desenhos foram mais que um estalo na cara, mais que um murro no estômago. Por tudo o que não fiz, por impotência é certo... Mas, não fiz. Não fizémos. Será a impotência real? Ou será a melhor forma de nos convencermos de que somos boas pessoas? Seres bondosos que mais não fazem apenas porque mais não podem fazer... No frigorifico dos meus tios, está um desenho que o meu primo fez. Tem cinco anos e desenhou árvores, borboletas, pessoas com um sorriso na cara, núvens... O Sol. Um Sol que existe (felizmente) para ele. Um Sol que ele vê, que ele conhece. Sorrisos que ele presencia. Árvores que crescem... E, pergunto-me... Não deveriam todas as crianças poder desenhar assim?

(Espinho, 20 de Setembro de 2007)

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